O Poeta João Azevedo do Carmo

Janeiro 21, 2007

Por Raúl Machado

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Aprendi a ler na biblioteca dos Penicheiros e sempre que abria um livro lá aparecia o poema colado nas primeiras páginas.
Só 35 anos depois em 2006 ao ler Eu, meus senhores, amo a liberdade de João Azevedo do Carmo soube quem era o autor.
Vai falar: O LIVRO
Leitor

Prova que és civilizado
tratando-me com cuidado.

Jovem, criança, pai, mãe:
faço bem – trata-me bem.

Põe um papel a forrar-me,
não vá a mesa sujar-me.

Não me abras de mais.Faz mal
à minha espinha dorsal!

Se espirrares ou tossires,
é favor não me atingires.

Folheia-me a seco….Prime.
O dedo à boca é um crime.

Que a tua mão ao fechar-me,
tenha cuidado em guardar-me…

Findas-te a leitura? Então
não me retenhas em vão…

Não pertenço a ti sómente,
sou livro de muita gente.
O LIVRO

O senhor Carmo era amigo do meu pai, pessoa de uma educação e cultura como já não se encontra. Não esqueço a maneira carinhosa com que me tratava.

Nasceu a 2 de Maio de 1899 no Barreiro.

Figura ímpar do movimento associativo foi :

– Fundador do Clube Naval Barreirense
– Fundador da Sociedade Esperantista Operária do Barreiro
– Dirigente do saudoso Clube 22 de Novembro
– Dirigente da Misericórdia do Barreiro
– Criador do curso nocturno do Instituto dos Ferroviários.

A par da sua actividade associativa também foi jornalista no Eco do Barreiro, Acção e Acção Nacionalista.
Em termos politicos foi dirigente do MUD no Barreiro e pertenceu à Comissão Conselhia da Candidatura de Norton de Matos à Presidência da República em 1947. Depois do 25 de Abril aderiu ao Partido Comunista Português.

Faleceu em 23 de Janeiro de 1986


Augusto Cabrita – A Memória das Imagens

Janeiro 21, 2007

Por Pedro M. Pereira

Treze anos são passados desde o desaparecimento físico de Augusto Cabrita. Treze anos de saudades do amigo, do companheiro das aventuras do dia-a-dia, do Mestre, do artista, ímpar no seu meio.
Augusto António do Carmo Cabrita, oriundo de famílias algarvias, casado com uma senhora de Portimão, nasceu no Barreiro em 1923, terra de tradições operárias e de grande movimento associativo e artístico.
Desta terra, ao longo dos anos, saíram nomes que se tornaram importantes no panorama artístico português, das mais diversas áreas. O Augusto viria a ser um deles.
Desde muito jovem que se dedicou à fotografia, tendo por isso, a partir de 1949, recebido os mais diversos galardões nacionais e estrangeiros. Dos mais importantes são de destacar, o Prémio da Crítica, em 1962, o Prémio Nacional de Cinema, em 1964, com o filme Belarmino, os mesmos Prémios em 1970 e 1971, e o Troféu Foca de Ouro, em São Paulo-Brasil, em 1968.
Desde o início da televisão em Portugal, em 1957, que com ela começou a colaborar, tendo realizado centenas de trabalhos, como as reportagens da guerra em Angola, a invasão de Goa, o terramoto de Agadir e por aí fora.
De entre os seus trabalhos mais recentes, aquele que ainda se mantém na retina de muitos espectadores, foi a série de filmes com o título genérico de Melomanias, em conjunto com João de Freitas Branco e Filipe Branco. Filmes a preto e branco em que as imagens «dançavam» ao som da música. Imagens de uma beleza impressionista, só possíveis de captar por quem ama a vida para além do que se vê, por quem domina a câmara de forma magistral.
Aliás, para o Augusto a vida era uma sucessão musical de imagens e escalas, de tons e sons que «agarrava», que sabia «agarrar» como ninguém através das suas câmaras, em filme ou foto.
Aqui, convém recordar, porque muitos o não sabem: o Augusto Cabrita era um brilhante pianista. Se não tem sido fotógrafo e cineasta, o seu nome teria visto as luzes da ribalta através do piano.
Mesmo após ter regressado a casa depois de uma longa e dolorosa doença que o prostrou hospitalizado por longos tempos num leito do Hospital da CUF, doença de que saiu sem audição, o Augusto no seu piano de cauda tocava, como se o ouvido apurado tivesse. Com sentimento, com amor, quase sempre afinado. Ainda hoje recordo essas imagens com profunda saudade e muita nostalgia, espantado, com o Tejo largo como um mar, em pano de fundo, para além das janelas da sua sala que se harmonizava com ele, connosco, com os amigos, com a Manuela, sua mulher, seu porto de abrigo.
Da fotografia de filmes da sua autoria são de salientar: Belarmino, de Fernando Lopes, Ilhas Encantadas, de Carlos Vilardebó, protagonizado por Amália Rodrigues e Catembe, de Faria de Almeida.
Realizou os filmes, Os Caminhos do Sol, com Carlos Vilardebó, Na Corrente, com música de Carlos Paredes, A Catedral da Angústia, com música de António Vitorino de Almeida e por aí fora.
Sobre o pugilista Belarmino, escreveu Augusto Cabrita: «A luz que o rosto de Belarmino irradiava era de uma beleza rara e comovente. Nascia assim tão natural, como nascem as coisas simples…Não era necessário dramatizar aquele rosto a golpes violentos de projector, porque o rosto de Belarmino era já dramático em si mesmo (…) Estou a vê-lo calmo e sereno no tapete do seu último combate (…) Guardo o plano na memória (…) É este o último plano de Belarmino».
Porém, para além das centenas de exposições fotográficas em que participou ao longo dos anos, produziu milhares de trabalhos de fotografia, com destaque para os realizados no Oriente.
De salientar também os trabalhos realizados para álbuns e enciclopédias de prestigiadas editoras {que de resto continuam a saír em sucessivas edições}, como Vilas e Aldeias de Portugal, Os Mais Belos Castelos de Portugal, Os Mais Belos Rios de Portugal, Os Parques e Reservas Naturais de Portugal, A Cozinha Tradicional Portuguesa, este, em conjunto com o fotógrafo António Homem Cardoso, e Europália Vista por Augusto Cabrita, {1991}, com texto de Nuno Judice, entre outros.
Culto, de uma rara sensibilidade e princípios éticos, reflectiam-se esses seus dotes na maneira de estar e de ser com todos, com o seu semelhante, na sua arte, na forma de captar a vida {que amava profundamente} em imagens com as suas câmaras.
Mestre Augusto Cabrita era um homem generoso, de carácter, nobre e leal como só pode ser um Homem.


Mestre Cabanas evocado em Vila Real de S.António

Janeiro 21, 2007

Por Pedro M. Pereira

No pretérito dia 11 de Fevereiro, um grupo de amigos do Mestre Manuel Cabanas, provenientes das mais diversas partes do país, com o patrocínio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Real de Stº António, personalizado no seu vereador da Cultura, Arqtº José Carlos Barros, levou a efeito uma romagem ao cemitério de Cacela, onde se encontra sepultado esse insigne artista e notável lutador pelos valores da democracia e da liberdade, valores esses que desde muito jovem, nortearam a sua vida.
Natural da localidade onde se encontram os seus restos mortais, cedo, Manuel dos Santos Cabanas deixou o futuro prometido na modesta lavra de seus pais, apanhando o comboio que o levaria até aquele que foi o seu destino por mais de seis décadas; o Barreiro.
Funcionário dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste, chegou a chefe de estação, onde, nessas funções, em serviço nocturno na estação da Moita, nas longas noites a que as chefias o tinham «condenado» por ter tomado posições em defesa dos valores que havia abraçado, soube tirar partido desse castigo, lendo os autores clássicos, estudando arte e praticando na arte que o haveria de projectar além fronteiras: a xilogravura.
Há onze anos, falecia no Hospital de Faro, onde havia dado entrada uns dias antes.
Desde o falecimento de sua esposa, havia-se fixado em Vila Real de Stº António, cuidando do Museu Municipal com o seu nome, fruto do espólio da sua arte que doou a essa cidade, pouco antes do 25 de Abril de 1974.
Situava-se então este pólo cultural vilarealense, no piso térreo do lado esquerdo, dos Paços do Concelho. Nele podíamos admirar, não só a maior parte da produção artística do Mestre, como também, trabalhos de importantes artistas nacionais e estrangeiros, que lhe haviam sido oferecidos ao longo dos anos, para além de um importante acervo relacionado com a arqueologia industrial do concelho; as pedras de impressão litográfica da antiga empresas de pescas dessa cidade, de seu nome, Ramiro, Perez & Combrera.
Como nota de destaque, refira-se que este era o único Museu do país aberto desde as 15h00 até às 23h00, o que, atendendo à sua situação geográfica, numa terra de forte atracão turística, não era de todo displicente. Sobretudo, porque no Verão, após o jantar, o Museu era visitado por milhares de turistas, constituído, assim, um importante cartão de visita de Vila Real de Stº António.
Hoje, só podemos vislumbrar uma pequena parte desse espólio, que se encontra patente ao público no Centro Cultural da cidade. O antigo Mercado.
No decorrer desse encontro, do passado sábado, durante o almoço de convívio, o vereador da Cultura, José Carlos Barros, usou da palavra não só para tecer elogios à figura de Cidadão e Artista que foi o Mestre Cabanas, como também, para anunciar que iria sugerir a criação de um Centro de Estudos em torno dessa figura ímpar, a ser criado sob a égide da autarquia vilarealense e em moldes a definir, atendendo à importância que a actual edilidade atribui ao eminente Artista.
Mestre Cabanas foi agraciado em vida com inúmeras condecorações, com destaque para a Comenda da Ordem da Liberdade e da Ordem do


Mestre Manuel Cabanas um Algarvio Vertical

Janeiro 21, 2007

Por Pedro M. Pereira

Falecido com 93 anos de idade bastante vivida e sofrida em defesa dos seus ideais, que são os ideais de muitos de nós; Liberdade, justiça, fraternidade, Manuel dos Santos Cabanas foi uma das figuras mais interessantes e importantes do século XX em Portugal e da região do Algarve.
Um lutador pela defesa da Democracia no sentido mais lato e pleno da palavra. Luta travada por estes princípios, durante toda a sua vida, vivida em boa parte desta, durante o Estado Novo. Morreu como sempre viveu; com verticalidade e coragem.
Manuel Cabanas nasceu em Vila Nova de Caceia, concelho de Vila Real de Santo António a 11 de Fevereiro de 1902, pouco mais de oito anos antes da
implantação da República. Filho de modestos proprietários agrícolas, amarrados aos magros proventos que conseguiam arrancar da terra quase sempre madrasta, fez a instrução primária agarrado à enxada e ao arado, pronunciando assim, uma continuidade feita destino ancestral de camponês pobre. Porém, a sua Índole rebelde levou-o a abandonar os trabalhos agrícolas e a empregar-se como factor nos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, que o irão levar das estações de Cacela e Vila Real de St°. António, ao desempenho
de funções em toda a linha. Em 1922, fixa residência no Barreiro, onde irá trabalhar nos escritórios dos Serviços Regionais do Sul e Sueste até 11 de
Maio de 1927. Filiado no antigo Sindicato dos Ferroviários do Sul e Sueste, aí irá exercer diversos cargos até ao encerramento dos sindicatos livres e independentes, em 1934, pelo Estado Corporativo. Manuel Cabanas teve o primeiro embate com a ditadura, por ocasião da Revolução de 7 de Fevereiro de 1927, tendo nessa altura, a convite do almirante Mendes Cabeçadas Júnior, feito parte da comissão revolucionária local. É nessa altura que, ao dirigir-se para o quartel de marinheiros de Vale de Zebro, acompanhado do vice almirante D. Luís da Câmara Leme, a fim de ganhar aquela unidade para a causa dos revolucionários, é preso à entrada dessa unidade militar. Essa prisão, resultou de uma traição por parte dos dois oficiais da Guarda Republicana comprometidos com o comité revolucionário.
Junto com o vice-almirante, é conduzido sob prisão para o Quartel de Sapadores de Caminhos de Ferro, em Campo de Ourique, e o almirante entregue no quartel da Marinha e daí deportado para Angra do Heroísmo, Açores, onde viria a falecer em 24 de Abril de 1928. Pouco tempo passado, Manuel Cabanas seria restituído à liberdade. Como represália, é destacado para o trabalho nocturno, na estação dos Caminhos de Ferro da Moita do Ribatejo, tendo nela permanecido dez anos, onde, surdamente, mantinha actividade política de oposição ao regime, o que o levaria a privar com vultos
importantes da intelectualidade e da política portuguesa tais como, Aquilino Ribeiro, Ramada Curto, Bento de Jesus Caraça, Câmara Reis, Piteira Santos, José Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Raul Rego, Arlindo Vicente e tantos outros, com os quais além de conviver, participará em vários actos políticos.
Radicado no Barreiro, uma das terras portuguesas que mais sofreu por parte do regime salazarista, muito especialmente durante a guerra civil de Espanha e a 2ª Grande Guerra Mundial, irá sofrer as perseguições do regime, como tantos outros lídimos portugueses da época.
A intervenção da oposição faz-se sob a designação de MUD. Manuel Cabanas trabalhava então, nos escritórios da C.P., em Santa Apolónia. Ao lado de Dr. Lima Alves. José Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos, Bento de Jesus Caraça, Nuno Rodrigues dos Santos e muitos outros, colabora na comissão de propaganda junto da Comissão Central do MUD. A partir destas eleições, irá ter um papel activo em todas as campanhas quer para a presidência da República quer para a Assembleia Nacional.
Desta forma, em 1958, faz parte da comissão central de candidatura do Dr. Arlindo Vicente à Presidência da República [que viria a declinar a favor do General Humberto Delgado] tendo para o efeito, em campanha, percorrido o país de norte a sul. A conferência para um acordo eleitoral entre os dois candidatos, deveria ter lugar em casa de Manuel Cabanas. Estabelecidos os contactos telefónicos para o efeito, os serviços de escuta da polícia salazarista tomaram conta da ocorrência e poucas horas antes do encontro, todos os pontos de acessos e convergência à casa do Mestre Cabanas eram tapados por forças de cavalaria da Guarda Nacional Republicana, destacadas de Évora para o Barreiro. Dada esta ocorrência, houve uma alteração de planos e Manuel Cabanas é encarregado, por decisão da comissão nacional de apoio à candidatura do Dr. Arlindo Vicente, de ir ao encontro do General, então presente em Almada num comício de propaganda da sua candidatura.
Já em Almada, Manuel Cabanas encontra o recinto cercado por forças policiais. Todavia consegue furtar-se ao cerco com a conivência de um agente policial, cliente do Dr. Arlindo Vicente, que o protege na sua missão. E é neste contexto, que pelas 4 horas do dia seguinte [28 de Maio de 1958], se realizava em casa do General a reunião em que foi estabelecido o acordo, por escrito, entre este e o Dr. Arlindo Vicente. Na sequência destes acontecimentos, em 30 desse mês, Manuel Cabanas é preso.
A repressão física e espiritual irá prosseguir nos anos que se seguem. Assim, em 5 de Outubro de 1960, por ocasião das celebrações do cinquentenário da implantação da Republica é detido e encarcerado com mais quarenta e três democratas que se haviam deslocado a sua casa a fim de saudá-lo pela ocasião do evento.
Em 10 de Novembro de 1961, volta ser preso e mantido incomunicável no forte de Caxias. Em 15 de Maio de 1970 é detido e levado para os calabouços da PIDE em Setúbal.
Homem destacado na política de oposição local do Barreiro, sofreu igualmente as agruras das perseguições pelas mesmas posições que tomava a nível nacional. Devido à sua actividade política foi perseguido a nível profissional, tendo sido coagido a permanecer na mesma categoria profissional durante vinte e três anos, com grandes prejuízos económicos daí advindos.
A par da actividade profissional e política, manteve sempre uma intensa actividade social e associativa, que o levou a fazer parte do Asilo D. Pedro V, no Barreiro da Comissão Nacional de Assistência aos Tuberculosos e, do Clube 22 de Novembro, no Barreiro, entre outras associações. Animador e interveniente de tertúlias artísticas, fez-se sempre rodear, sobretudo, por gente jovem, entre os quais se incluía o autor destas linhas. Xilogravador. autodidacta, desde 1938 que se dedicou a esta nobre arte, das mais antigas que se conhecem, iniciando então, a produção de uma obra artística impar.
Aos 70 anos de idade, sem filhos e não desejando ver o seu imenso espólio disperso, decide legar, de acordo com a sua mulher, a imensa colecção, à sua terra natal, com a condição expressa de com ela ser criada um museu onde
estivesse permanentemente patente ao público e ao serviço da comunidade.
Desta forma, em 6 de Abril de 1974, o Museu foi inaugurado, nas instalações do r/c do edifício dos Paços do Concelho de Vila Real de Stº. António.
Deixou legadas ainda, obras suas, ao Museu Lapidar Infante D. Henrique, em Faro; Museu de Stº, António, em Lagos; Museu Santos Rocha da Figueira da Foz; Museu Casa dos Patudos em Alpiarça; e por último, à Câmara Municipal do Barreiro, para o dia em que esta cidade tivesse um Museu.
Surpreendido com o golpe militar do 25 de Abril de 1974, é com entusiasmo que junto com outros amigos [entre os quais incluiu este vosso cronista], funda a secção do Partido Socialista no Barreiro.
Fundador do Partido Socialista na clandestinidade, em 1973, militante nº 55, é efeito deputado por Faro, à Assembleia Legislativa de 1976.
Posteriormente virá a ser eleito deputado à Assembleia Municipal de Vila Real de Santo António.
Em 1983 foi galardoado com a Medalha de Ouro Barreiro Reconhecido, pela dedicação e serviços culturais prestados à cidade. Em 23 de Julho de 1985 recebeu no Palácio de Belém pelas mãos do Presidente da República General Ramalho Eanes, a Ordem da Liberdade, no grau de Comendador.
Em 1987, foi homenageado pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, e em 1991, com a Medalha de Honra do Distrito de Setúbal. Ainda nesse ano, foi agraciado pelo Presidente da República, Dr. Mário Soares com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.


A Quinta Braamcamp

Janeiro 21, 2007

Por Pedro M. Pereira

Sob o reinado de D. Maria I, diversas fábricas do Estado foram entregues à administração ou à propriedade de particulares. De entre elas, algumas das mais importantes. Assim, no relatório das fábricas datado de 1788, somos informados terem sido entregues à iniciativa privada, entre outras, fábricas como a do vidro, em Coina e a importantíssima fábrica têxtil de Portalegre.
De referir, que uma lei datada de 1785, proibiu as manufacturas têxteis no Brasil, à excepção do pano de algodão barato usado pelos escravos e para sacas. Deste modo, a maior parte da produção artesanal portuguesa seguia directamente para o Brasil. A crescente necessidade de panos nessa colónia, a par da limitação à importação de panos e outros artigos, imposta através de medidas decretadas durante o consulado de Pombal, visando o incremento da indústria portuguesa, irão contribuir para o desenvolvimento e consequente importância das fábricas de têxteis nacionais. A primeira de entre elas, será a de Portalegre, a qual virá a ter três vezes mais trabalhadores produzindo para a sua unidade industrial, em teares domésticos espalhados pela região, caso de Estremoz, que nas suas instalações, em 1779, para um total de 1348 operários, só 370 laboravam dentro dos seus portões.
O privilégio da exploração desta fábrica, será concedido por carta régia datada de 29 de Março de 1788, pelo período de doze anos, a Geraldo Venceslau Braamcamp de Almeida Castelo Branco e a Anselmo José da Cruz Sobral, e extensivo a seus herdeiros, conforme carta de privilégio que refere ainda: «(…) que em consideração às muitas vantagens que resultarão ao bem comum deste Reino e particularmente aos povos da província do Além Tejo, no adiantamento da Industria, aumento e perfeição das Fábricas de Lanifícios: É Sua Majestade servida declarar, que sempre que nestes importantes objectos e por efeito das diligências, aplicações e despesas deles interessados Anselmo José da Cruz Sobral e Geraldo Venceslau Braamcamp de Almeida Castelo Branco se verifique e desempenhe a confiança que faz do seu zelo e préstimo, os atenderá e remunerará por tais serviços, como feitos à Coroa e conforme a Sua Real Grandeza (…)».
Acresce dizer, que Geraldo Venceslau Braamcamp foi o primeiro proprietário da quinta situada no Mexilhoeiro, no Barreiro, onde hoje se encontra uma unidade corticeira. A quinta do Braamcamp tornou-se em vida do seu proprietário uma importante granja de criação de bichos-da-seda, produção destinada à indústria têxtil.
Geraldo Braamcamp nasceu em 28.10.1752 e morreu em 6.6.1828. Abastado comerciante, recebeu o título de 1º barão de Sobral em 1813. Essa nobilitação ficou a dever-se e inscreve-se nos novos ventos que a partir de Pombal, vinham marcando a vida portuguesa. O Comércio havia sido declarado profissão nobre e os comerciantes autorizados a constituir morgados com os seus bens, privilégio que até então se considerava exclusivo da nobreza.
Quanto a Anselmo José da Cruz Sobral, falecido em 1802, era sogro de Venceslau Braamcamp. Abastado comerciante e capitalista de Lisboa, entre outras actividades constaram as de provedor da Junta de Comércio, co-arrematador do contracto dos Tabacos e financiador da construção do Teatro Real de S. Carlos. Protegido pelo Marquês de Pombal e acarinhado pelos governos de D. Maria I, teve papel de relevo na sociedade capitalista do seu tempo, ficando como um dos melhores exemplos da nobreza de dinheiro dos finais do século XVIII. Iniciado maçon em Loja e data desconhecidas, teve contactos com maçons além-fronteiras.
À morte de Geraldo Venceslau Braamcamp, passou a quinta para a posse do seu filho segundo, Anselmo José Braamcamp, que a alienou em 1837. Este nasceu em Lisboa em 23 de Outubro de 1819 e faleceu nessa cidade em 13 de Novembro de 1885. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, magistrado e político, exerceu as funções de secretário-geral do distrito de Lisboa e de vogal do Supremo Tribunal Administrativo. Defendeu a Patuleia que fez governador-civil dos Distritos do Sul do país (1847), Foi deputado, ministro do Reino, da Fazenda, dos Negócios Estrangeiros e interinamente da Justiça, do Ultramar e da Marinha. Foi Presidente do Conselho de Ministros de 1879 a 1881, pertenceu ao Partido Histórico e mais tarde ao Partido Progressista. Foi iniciado em data e Loja desconhecidas. Por sua vez, Hermano José Braamcamp de Almeida Castelo Branco, tornou-se por morte de 2º barão do Sobral (1828), 1º Visconde (1838) e 1º Conde do Sobral em 1844. Foi iniciado e Loja e data desconhecidas. Nascido em 16.9.1775 e morto em 2.2.1846, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, oficial do exército, aderiu à Revolução Liberal de 1820, tendo pertencido à Junta Governativa do Reino presidida por Fernandes Tomás e à regência dela saída (1820-21). Desempenhou o cargo de secretário de Estado da Fazenda (1826-27) e foi também deputado, Par do Reino e Senador.