Mestre Manuel Cabanas um Algarvio Vertical

Por Pedro M. Pereira

Falecido com 93 anos de idade bastante vivida e sofrida em defesa dos seus ideais, que são os ideais de muitos de nós; Liberdade, justiça, fraternidade, Manuel dos Santos Cabanas foi uma das figuras mais interessantes e importantes do século XX em Portugal e da região do Algarve.
Um lutador pela defesa da Democracia no sentido mais lato e pleno da palavra. Luta travada por estes princípios, durante toda a sua vida, vivida em boa parte desta, durante o Estado Novo. Morreu como sempre viveu; com verticalidade e coragem.
Manuel Cabanas nasceu em Vila Nova de Caceia, concelho de Vila Real de Santo António a 11 de Fevereiro de 1902, pouco mais de oito anos antes da
implantação da República. Filho de modestos proprietários agrícolas, amarrados aos magros proventos que conseguiam arrancar da terra quase sempre madrasta, fez a instrução primária agarrado à enxada e ao arado, pronunciando assim, uma continuidade feita destino ancestral de camponês pobre. Porém, a sua Índole rebelde levou-o a abandonar os trabalhos agrícolas e a empregar-se como factor nos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, que o irão levar das estações de Cacela e Vila Real de St°. António, ao desempenho
de funções em toda a linha. Em 1922, fixa residência no Barreiro, onde irá trabalhar nos escritórios dos Serviços Regionais do Sul e Sueste até 11 de
Maio de 1927. Filiado no antigo Sindicato dos Ferroviários do Sul e Sueste, aí irá exercer diversos cargos até ao encerramento dos sindicatos livres e independentes, em 1934, pelo Estado Corporativo. Manuel Cabanas teve o primeiro embate com a ditadura, por ocasião da Revolução de 7 de Fevereiro de 1927, tendo nessa altura, a convite do almirante Mendes Cabeçadas Júnior, feito parte da comissão revolucionária local. É nessa altura que, ao dirigir-se para o quartel de marinheiros de Vale de Zebro, acompanhado do vice almirante D. Luís da Câmara Leme, a fim de ganhar aquela unidade para a causa dos revolucionários, é preso à entrada dessa unidade militar. Essa prisão, resultou de uma traição por parte dos dois oficiais da Guarda Republicana comprometidos com o comité revolucionário.
Junto com o vice-almirante, é conduzido sob prisão para o Quartel de Sapadores de Caminhos de Ferro, em Campo de Ourique, e o almirante entregue no quartel da Marinha e daí deportado para Angra do Heroísmo, Açores, onde viria a falecer em 24 de Abril de 1928. Pouco tempo passado, Manuel Cabanas seria restituído à liberdade. Como represália, é destacado para o trabalho nocturno, na estação dos Caminhos de Ferro da Moita do Ribatejo, tendo nela permanecido dez anos, onde, surdamente, mantinha actividade política de oposição ao regime, o que o levaria a privar com vultos
importantes da intelectualidade e da política portuguesa tais como, Aquilino Ribeiro, Ramada Curto, Bento de Jesus Caraça, Câmara Reis, Piteira Santos, José Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Raul Rego, Arlindo Vicente e tantos outros, com os quais além de conviver, participará em vários actos políticos.
Radicado no Barreiro, uma das terras portuguesas que mais sofreu por parte do regime salazarista, muito especialmente durante a guerra civil de Espanha e a 2ª Grande Guerra Mundial, irá sofrer as perseguições do regime, como tantos outros lídimos portugueses da época.
A intervenção da oposição faz-se sob a designação de MUD. Manuel Cabanas trabalhava então, nos escritórios da C.P., em Santa Apolónia. Ao lado de Dr. Lima Alves. José Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos, Bento de Jesus Caraça, Nuno Rodrigues dos Santos e muitos outros, colabora na comissão de propaganda junto da Comissão Central do MUD. A partir destas eleições, irá ter um papel activo em todas as campanhas quer para a presidência da República quer para a Assembleia Nacional.
Desta forma, em 1958, faz parte da comissão central de candidatura do Dr. Arlindo Vicente à Presidência da República [que viria a declinar a favor do General Humberto Delgado] tendo para o efeito, em campanha, percorrido o país de norte a sul. A conferência para um acordo eleitoral entre os dois candidatos, deveria ter lugar em casa de Manuel Cabanas. Estabelecidos os contactos telefónicos para o efeito, os serviços de escuta da polícia salazarista tomaram conta da ocorrência e poucas horas antes do encontro, todos os pontos de acessos e convergência à casa do Mestre Cabanas eram tapados por forças de cavalaria da Guarda Nacional Republicana, destacadas de Évora para o Barreiro. Dada esta ocorrência, houve uma alteração de planos e Manuel Cabanas é encarregado, por decisão da comissão nacional de apoio à candidatura do Dr. Arlindo Vicente, de ir ao encontro do General, então presente em Almada num comício de propaganda da sua candidatura.
Já em Almada, Manuel Cabanas encontra o recinto cercado por forças policiais. Todavia consegue furtar-se ao cerco com a conivência de um agente policial, cliente do Dr. Arlindo Vicente, que o protege na sua missão. E é neste contexto, que pelas 4 horas do dia seguinte [28 de Maio de 1958], se realizava em casa do General a reunião em que foi estabelecido o acordo, por escrito, entre este e o Dr. Arlindo Vicente. Na sequência destes acontecimentos, em 30 desse mês, Manuel Cabanas é preso.
A repressão física e espiritual irá prosseguir nos anos que se seguem. Assim, em 5 de Outubro de 1960, por ocasião das celebrações do cinquentenário da implantação da Republica é detido e encarcerado com mais quarenta e três democratas que se haviam deslocado a sua casa a fim de saudá-lo pela ocasião do evento.
Em 10 de Novembro de 1961, volta ser preso e mantido incomunicável no forte de Caxias. Em 15 de Maio de 1970 é detido e levado para os calabouços da PIDE em Setúbal.
Homem destacado na política de oposição local do Barreiro, sofreu igualmente as agruras das perseguições pelas mesmas posições que tomava a nível nacional. Devido à sua actividade política foi perseguido a nível profissional, tendo sido coagido a permanecer na mesma categoria profissional durante vinte e três anos, com grandes prejuízos económicos daí advindos.
A par da actividade profissional e política, manteve sempre uma intensa actividade social e associativa, que o levou a fazer parte do Asilo D. Pedro V, no Barreiro da Comissão Nacional de Assistência aos Tuberculosos e, do Clube 22 de Novembro, no Barreiro, entre outras associações. Animador e interveniente de tertúlias artísticas, fez-se sempre rodear, sobretudo, por gente jovem, entre os quais se incluía o autor destas linhas. Xilogravador. autodidacta, desde 1938 que se dedicou a esta nobre arte, das mais antigas que se conhecem, iniciando então, a produção de uma obra artística impar.
Aos 70 anos de idade, sem filhos e não desejando ver o seu imenso espólio disperso, decide legar, de acordo com a sua mulher, a imensa colecção, à sua terra natal, com a condição expressa de com ela ser criada um museu onde
estivesse permanentemente patente ao público e ao serviço da comunidade.
Desta forma, em 6 de Abril de 1974, o Museu foi inaugurado, nas instalações do r/c do edifício dos Paços do Concelho de Vila Real de Stº. António.
Deixou legadas ainda, obras suas, ao Museu Lapidar Infante D. Henrique, em Faro; Museu de Stº, António, em Lagos; Museu Santos Rocha da Figueira da Foz; Museu Casa dos Patudos em Alpiarça; e por último, à Câmara Municipal do Barreiro, para o dia em que esta cidade tivesse um Museu.
Surpreendido com o golpe militar do 25 de Abril de 1974, é com entusiasmo que junto com outros amigos [entre os quais incluiu este vosso cronista], funda a secção do Partido Socialista no Barreiro.
Fundador do Partido Socialista na clandestinidade, em 1973, militante nº 55, é efeito deputado por Faro, à Assembleia Legislativa de 1976.
Posteriormente virá a ser eleito deputado à Assembleia Municipal de Vila Real de Santo António.
Em 1983 foi galardoado com a Medalha de Ouro Barreiro Reconhecido, pela dedicação e serviços culturais prestados à cidade. Em 23 de Julho de 1985 recebeu no Palácio de Belém pelas mãos do Presidente da República General Ramalho Eanes, a Ordem da Liberdade, no grau de Comendador.
Em 1987, foi homenageado pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, e em 1991, com a Medalha de Honra do Distrito de Setúbal. Ainda nesse ano, foi agraciado pelo Presidente da República, Dr. Mário Soares com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Anúncios

One Response to Mestre Manuel Cabanas um Algarvio Vertical

  1. Morgado diz:

    Há qualquer lapso no texto pois Mestre Manuel Cabanas que também foi meu amigo nunca foi deputado à Assembleia Constituinte. Os 2 deputados do Barreiro À Assembleia Constituinte foram o Florival Nobre e uma professora de nome Vitorino

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: