A Quinta Braamcamp

Por Pedro M. Pereira

Sob o reinado de D. Maria I, diversas fábricas do Estado foram entregues à administração ou à propriedade de particulares. De entre elas, algumas das mais importantes. Assim, no relatório das fábricas datado de 1788, somos informados terem sido entregues à iniciativa privada, entre outras, fábricas como a do vidro, em Coina e a importantíssima fábrica têxtil de Portalegre.
De referir, que uma lei datada de 1785, proibiu as manufacturas têxteis no Brasil, à excepção do pano de algodão barato usado pelos escravos e para sacas. Deste modo, a maior parte da produção artesanal portuguesa seguia directamente para o Brasil. A crescente necessidade de panos nessa colónia, a par da limitação à importação de panos e outros artigos, imposta através de medidas decretadas durante o consulado de Pombal, visando o incremento da indústria portuguesa, irão contribuir para o desenvolvimento e consequente importância das fábricas de têxteis nacionais. A primeira de entre elas, será a de Portalegre, a qual virá a ter três vezes mais trabalhadores produzindo para a sua unidade industrial, em teares domésticos espalhados pela região, caso de Estremoz, que nas suas instalações, em 1779, para um total de 1348 operários, só 370 laboravam dentro dos seus portões.
O privilégio da exploração desta fábrica, será concedido por carta régia datada de 29 de Março de 1788, pelo período de doze anos, a Geraldo Venceslau Braamcamp de Almeida Castelo Branco e a Anselmo José da Cruz Sobral, e extensivo a seus herdeiros, conforme carta de privilégio que refere ainda: «(…) que em consideração às muitas vantagens que resultarão ao bem comum deste Reino e particularmente aos povos da província do Além Tejo, no adiantamento da Industria, aumento e perfeição das Fábricas de Lanifícios: É Sua Majestade servida declarar, que sempre que nestes importantes objectos e por efeito das diligências, aplicações e despesas deles interessados Anselmo José da Cruz Sobral e Geraldo Venceslau Braamcamp de Almeida Castelo Branco se verifique e desempenhe a confiança que faz do seu zelo e préstimo, os atenderá e remunerará por tais serviços, como feitos à Coroa e conforme a Sua Real Grandeza (…)».
Acresce dizer, que Geraldo Venceslau Braamcamp foi o primeiro proprietário da quinta situada no Mexilhoeiro, no Barreiro, onde hoje se encontra uma unidade corticeira. A quinta do Braamcamp tornou-se em vida do seu proprietário uma importante granja de criação de bichos-da-seda, produção destinada à indústria têxtil.
Geraldo Braamcamp nasceu em 28.10.1752 e morreu em 6.6.1828. Abastado comerciante, recebeu o título de 1º barão de Sobral em 1813. Essa nobilitação ficou a dever-se e inscreve-se nos novos ventos que a partir de Pombal, vinham marcando a vida portuguesa. O Comércio havia sido declarado profissão nobre e os comerciantes autorizados a constituir morgados com os seus bens, privilégio que até então se considerava exclusivo da nobreza.
Quanto a Anselmo José da Cruz Sobral, falecido em 1802, era sogro de Venceslau Braamcamp. Abastado comerciante e capitalista de Lisboa, entre outras actividades constaram as de provedor da Junta de Comércio, co-arrematador do contracto dos Tabacos e financiador da construção do Teatro Real de S. Carlos. Protegido pelo Marquês de Pombal e acarinhado pelos governos de D. Maria I, teve papel de relevo na sociedade capitalista do seu tempo, ficando como um dos melhores exemplos da nobreza de dinheiro dos finais do século XVIII. Iniciado maçon em Loja e data desconhecidas, teve contactos com maçons além-fronteiras.
À morte de Geraldo Venceslau Braamcamp, passou a quinta para a posse do seu filho segundo, Anselmo José Braamcamp, que a alienou em 1837. Este nasceu em Lisboa em 23 de Outubro de 1819 e faleceu nessa cidade em 13 de Novembro de 1885. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, magistrado e político, exerceu as funções de secretário-geral do distrito de Lisboa e de vogal do Supremo Tribunal Administrativo. Defendeu a Patuleia que fez governador-civil dos Distritos do Sul do país (1847), Foi deputado, ministro do Reino, da Fazenda, dos Negócios Estrangeiros e interinamente da Justiça, do Ultramar e da Marinha. Foi Presidente do Conselho de Ministros de 1879 a 1881, pertenceu ao Partido Histórico e mais tarde ao Partido Progressista. Foi iniciado em data e Loja desconhecidas. Por sua vez, Hermano José Braamcamp de Almeida Castelo Branco, tornou-se por morte de 2º barão do Sobral (1828), 1º Visconde (1838) e 1º Conde do Sobral em 1844. Foi iniciado e Loja e data desconhecidas. Nascido em 16.9.1775 e morto em 2.2.1846, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, oficial do exército, aderiu à Revolução Liberal de 1820, tendo pertencido à Junta Governativa do Reino presidida por Fernandes Tomás e à regência dela saída (1820-21). Desempenhou o cargo de secretário de Estado da Fazenda (1826-27) e foi também deputado, Par do Reino e Senador.

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One Response to A Quinta Braamcamp

  1. Li com muito interesse a historia da quinta de braamcamp. Curiosamaente quando era pequeno o meu avo( Albert Hugh Reynolds)( e tios) viviam na quinta e faziam parte da gerencia da Fabrica de Cortica. Gostaria de saber quando foi que eles tomaram posse da quinta e a razao de tal ter acontecido? Eles viveram na quinta ate 1969 quando mudaram para a Restelo.

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